sexta-feira, 26 de outubro de 2012

So true!

As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
...Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E tambem as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que á Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem á solta só me espanta.

IV

E vãs, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho á minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já tem no seu gene
A besta horrí­vel do poder perene!

Luiz Vaz Sem Tostões

sábado, 20 de outubro de 2012

"45 anos", de Domingos Amaral


45 anos

Hoje, faço 45 anos e tenho muitas razões para estar feliz. Tenho quatro filhos, um rapaz e três raparigas, que amo incondicionalmente e por quem dava a vida num segundo. Estou apaixonado pela minha mulher, e todas as noites me deito ao seu lado de mão dada. Adoro a minha mãe e o meu pai, admiro-os e sobretudo preciso deles, como se ainda fosse uma criança. Tenho três irmãos que todos os dias tenho de saber se estão bem, uma enorme família de tios, tias, primos e primas, sobrinhos e sobrinhas, que faz de cada reunião uma festa divertida e barulhenta, onde as alegrias se multiplicam e as tristezas se dividem. E tenho muitos e bons amigos e amigas, com quem se pudesse ficaria noites inteiras a conversar ou a dançar, até o sol nascer. 
Sim, tenho 45 anos e muitas razões para ser feliz. Já escrevi sete livros, plantei muitas árvores no Alentejo, e conduzi um Ferrari F 40. Faço o que gosto, escrever, e dedico-me à escrita com o entusiasmo com que uma criança se dedica a saltar ao eixo no recreio.
No entanto, hoje não me sinto muito feliz. Nestes tempos, nós somos mais do que o nosso mundo privado, por mais bonito e harmonioso que ele seja. Hoje, sinto à minha volta um país em sofrimento, um país aterrado com o futuro, um país zangado e desesperado. Sinto Portugal à beira de um abismo, e isso estraga-me o meu desejo privado de felicidade. Não é possível sermos completamente felizes quando à nossa volta o nosso país se desmorona, às vezes depressa, outras em câmara lenta, como se a demora da queda a tornasse mais suportável.
Hoje, faço 45 anos mas gostava de fazer 2, para não me dar conta do que se passa, ou 95, para já me ser indiferente o destino do meu país. No entanto, faço 45, o que é idade mais do que suficiente para não esconder a cabeça debaixo da areia e enfrentar com serenidade e lucidez qualquer desafio que a vida me apresente. E é por isso que escrevo isto, os meus pensamentos de hoje, e os quero de partilhar com os meus leitores. Porque há momentos para ficar calado e momentos para falar, há momentos em que devemos deixar o rio correr e outros em que devemos navegá-lo, por mais difícil que isso seja.
Hoje, aos 45 anos, gostava de vos poder deixar uma mensagem de esperança, dizer-vos que acredito que o calvário que atravessamos vai terminar, que já não falta muito. Gostava de vos poder dizer "aguentem", "é só mais um bocadinho", "isto vai melhorar". Gostava mas não consigo, seria uma monumental mentira. Na verdade, e provavelmente como muitos de vós, eu não acredito que por este caminho as coisas vão melhorar. Não acredito que o futuro vá ser melhor, porque não acredito em quem nos conduz.
Nunca fui de esquerda, nem nunca vou ser, nunca votei à esquerda do PSD, nem me parece que algum dia vá votar, mas isso não significa nada. Neste momento, já interessa muito pouco se somos de esquerda ou de direita, se somos conservadores, democratas-cristãos, sociais-democratas, socialistas, liberais ou comunistas. Neste momento, a única coisa que interessa é que somos todos portugueses, e estamos todos com os bolsos cada vez mais vazios e a alma cada vez mais carregada de aflições.
Neste momento, a única coisa que interessa é mostrarmos ao mundo que não queremos mais este caminho tortuoso e inútil que não nos leva a lado nenhum. O que vou escrever, não o escrevo de ânimo leve, escrevo-o com tristeza. Este governo que temos é o mais incompetente dos últimos trinta e tal anos. Erra, e em vez de corrigir os erros, insiste neles e até os amplifica, com uma cegueira aterradora. Está a conduzir Portugal para um desastre colossal, para um poço sem fundo, está a empurrar-nos para um abismo de onde não há regresso.
Não consigo assistir calado a este espectáculo de estupidez lamentável que estamos a presenciar. Se é este o caminho que estes senhores nos têm para oferecer, então que se vão embora e que venha alguém que saiba o que tem de ser feito e o faça. Não acredito que não existam em Portugal portugueses mais competentes do que estes, para nos ajudarem a sair deste buraco. É isto que eu penso, neste dia em que faço 45 anos, dia em que gostava de me sentir mais optimista, porque gosto muito do meu país e é nele que quero continuar a tentar, todos os dias, ser feliz. 

*******
Este texto foi escrito por Domingos Amaral, no seu "Diário de Domingos Amaral" no passado dia 12 de outubro. Devo dizer que estou inteiramente de acordo com ele: o que é que interessa se o governo é de direita ou de esquerda, se prefere símbolos às bolas, com setas, punhos, rosas, foices, martelos ou estrelas? Pede-se apenas competência e lucidez, mas, infelizmente, o que os portugueses observam diariamente  é a este "espectáculo de estupidez lamentável", como refere o autor. Mais à vontade fico por votar mais à esquerda que o autor - embora não me reveja em nenhum partido! Mas pessoas de bem, que amam o seu país, facilmente se entendem e compreendem...

domingo, 30 de setembro de 2012

Acrescenta-me um ponto...


Regras da Rubrica "Acrescenta-me um ponto!":

1 - O texto, constituído por vinte parágrafos, terá início no blogue "O Sabor da Palavra" (http://osabordapalavra.blogspot.com), segundo o seu autor Gonçalo Cardoso.

2 - Cada bloguista terá direito a um parágrafo do texto com o máximo de cinco linhas. Não é taxativo, tanto pode ser mais ou menos, mas sem exageros.

3 - Após a realização do parágrafo respectivo, cada bloguista terá que seleccionar outro bloguista que cumpra a continuidade do texto, segundo as regras mencionadas.

4 - Cada bloguista terá o limite máximo de três dias para realização do parágrafo, estando sujeito a desclassificação da rubrica e seleccção de novo bloguista por parte do seu autor.

5 - Cada bloguista assinará o seu nome e respectivo blogue na lista dos participantes.

6 - O último participante ou autor do vigésimo parágrafo, finalizará o texto e partilhará com o autor do blogue "O Sabor da Palavra" para a sua divulgação no blogue inicial.

7 - Sejam criativos.

Lista de Participantes:
 1 - Gonçalo Cardoso (O Sabor da Palavra)
 2 - Buxexinhas (Pedacinhos de mim...)
 3 - Karochinha (O Meu Eu)
 4 - A Minha Essência (Roupa Prática)
 5 - Olívia Palito (Olívia Palito no País das Maravilhas)
 6 - L'Enfant Terrible (L'Enfant Terrible Lx)
 7 - Utena (Os meus idealismos)
 8 - Alexandra Martinho (Ouso Escrever)
 9 - AC ( nadadecoisanenhuma)
10 - Poppy (Apontamentos de Luz)
11 - Briseis (do meu pedestal)
12 - Teté (Quiproquó)
13 -
14 -
15 -
16 -
17 -
18 -
19 -
20 -

E começa assim:

"Já tinha dobrado as duas da manhã. Estava a sair da emissão de rádio, incomodado com um ouvinte que alegava a minha falta de isenção jornalística. Segundo ele, apenas dava voz aos ouvintes do sexo feminino e os temas escolhidos revelavam uma tremenda homofobia. Estapafúrdio, dizia para mim! Mas para o exterior resolvi o problema com a introdução de uma música de intervenção social. E assim fechei o programa. Peguei na mala, desci as escadas em direcção ao parque subterrâneo e ao chegar junto do carro encontrei um segredo envenenado..."

“No seu vestido vermelho delineado na pele, ela olhava-me intensamente recostada no capô do meu carro, como um lince que espera a sua presa. Por momentos o meu coração parou de bater. ‘Voltou…’, pensei angustiantemente. Fantasmas do passado e segredos escondidos no recanto mais negro do meu ser… Renascidos da minha cinza. Em passos lentos, dirigi-me a ela. As palavras silenciosas do seu olhar disseram-me para onde ela me levaria. Entrámos no carro seguindo para o local temido…”

"...por ambos.
Aquela falésia onde, alguns anos antes, a tragédia se abatera sobre as suas vidas alterou os seus futuros para sempre. E todos os anos, no mesmo dia, encontravam-se antes do amanhecer, naquela pedaço de rocha que se erguia sobre o mar, numa esperança vã de expiarem os seus pecados mais profundos. Chegados ao local, saíram do carro e mais uma vez, as suas mãos encontraram-se e uniram-se, os seus corpos aproximaram-se e ela disse-lhe:"

"... Com a voz tremida, sussurrada, gélida, com a postura hirta e consciente do momento, Amanda começa a debitar desenfreadamente como tudo aconteceu, naquela fatídica noite...
... "Não tive culpa! Não tive! Acredita em mim, por favor! Foi um acidente. Foi ele que escorregou da falésia, ele!" - Sedutora mas ao mesmo tempo frágil, ela sabia exactamente como emaranhar um homem na sua teia. Sabia exactamente a palavra certa a ser usada, o gesto proveniente, o olhar mais assertivo para a ocasião. Manhosa, laça-o num envolvente abraço onde o choro compulsivo é o senhor do momento. Entre soluços mas, com uma voz doce, repete incessantemente, "não fui eu! Não fui eu!" - Com o rosto apoiado no peito de Edmundo, via-se claramente o sorriso dissimulado que fazia. Ele, estava completamente rendido à fragilidade dela mas, ao contrário do que ela pensava, que o tinha nas suas mãos, Edmundo, também tinha algo a dizer..." 

 "...  acerca daquela fatídica noite.  Edmundo fixou o olhar na falésia e ficou em silêncio por alguns segundos, enquanto os braços de Amanda o envolviam. De repente,  ficou tudo absolutamente claro na cabeça de Edmundo, as peças do puzzle mental começavam a encaixar-se na perfeição. Lembrou-se da conversa off record que tivera com o inspector da polícia acerca do relatório da autópsia de Fred. Segundo o mesmo relatório, Fred havia ingerido uma dose substancial de whisky, confirmando assim o álibi de Amanda, de que Fred se desequilibrara e caíra daquela falésia. Porém, fez-se luz e um pormenor fulcral escapara a ambos: ao inspector da polícia e a Amanda, mas não a Edmundo..."

"...isto porque Fred não bebia whisky, sofria de doença celíaca, de modo que tudo o que contivesse glúten, o que incluía bebidas feitas de malte, não lhe passavam pela garganta. Por outro lado a revelação Fred fizera a Edmundo um dia antes da tragédia era de todo desconcertante, tanto mais que de dizia respeito aos três, sendo que conteúdo da mesma tivera desde então um profundo impacto em Edmundo, ao ponto de o mesmo perder parte da sua imparcialidade jornalística. Ainda assim, envolto no choro soluçado de Amanda, Edmundo era incapaz de proferir uma palavra, de partilhar com ela o que pensava porque havia mais um elemento em jogo, uma dúvida perene que o levava a sentir-se tal como o mar revolto e sem definição que vislumbrava no horizonte..."  

“Não querendo mas ao mesmo tempo sem conseguir parar a maré das lembranças chegou-lhe à memória aquela noite que hoje lhe dava o conhecimento do facto de Fred não beber whisky. Fred confessou-lhe num ousado momento de coragem que se sentia atraído por Edmundo e que isso o deixava sem saber como agir pois nunca tinha sentido isso por homem nenhum já que sempre fora um mulherengo por natureza!
A convivência dos dois, muito por culpa de Amanda, o lamber das feridas causadas por esta mulher de escrúpulos nulos tinha feito com que os sentimentos florescessem em dois homens que mesmo nada indicando que assim fosse os levou a sentir o que para ambos deveria ser tabu.
Edmundo voltou a realidade com um soluço mais audível de Amanda e quando à olhava no profundo dos seus olhos verdes deu-se conta…”

"...deu-se conta do quanto aquela mulher já havia sofrido. Fred horas antes de falecer havia contado a Edmundo que Amanda aos 20 anos se havia submetido a uma cirurgia de retribuição sexual. Sim, Amanda fora um menino em outros tempos, mas hoje era aquilo a que Fred e Edmundo chamavam de tentação. Edmundo olhava-a e um misto de sentimentos lhe assolavam a mente, perdera alguém que lhe era muito próximo, um amigo, mas também, um silencioso admirador. E ali, diante de seus olhos estava a mulher indefesa e esbelta que soluçava e por quem ele era estupidamente apaixonado, mas que carregava tão pesado segredo. Segredo esse que toda a sociedade condenava e condena. Edmundo perturbado necessita voltar, ir ao encontro do seu pedaço de chão para meditar e montar todo aquele puzzle confuso. Suplicou-lhe - "Amanda, necessito ir, vamos?". Amanda para ele olhou, com olhar fugaz, e disse..."

"...És um homem cruel senão me aceitas como sou. E se assim for sem dúvida que não me mereces.Sou especial, sou única e estou disponível para te amar, com tudo o que tenho para te oferecer, mas jamais partilharia a minha vida ou o meu corpo, com quem olhasse para mim com desprezo ou nojo. Sendo assim cuida-te, olha para ti, observa-te com atenção e vais reparar em todos os teus defeitos... por agora vou apenas embrulhar-me no teu casaco sentir o teu cheiro e o teu calor que são presença nele e esperar que tu abras os olhos e possas ver para além do físico, do estereotipo e do preconceito a mulher que hoje eu sou...estou aqui, estarei sempre aqui para ti... de braços abertos...anda, decide-te não tenho o tempo todo..."

"... Mas na cabeça de Edmundo cada vez mais as dúvidas e as desconfianças se instalaram. Havia demasiadas incongruências em torno daquela noite e um relatório conivente como que Amanda lhe dizia mas contrário ao que conhecia de Fred, este jamais poderia ter bebido Whisky naquela noite. Não estavam em causa os desejos que nutria por aquela mulher, não se colocava em questão as mudanças de sexo, o que lhe assolapava as ideias era tão somente o que teria sido capaz de fazer aquela mulher de escrúpulos nulos, de vermelho vestida se soubesse do que acontecera entre eles, não foi capaz de lhe dizer mais nada. Levou-a a casa e naquele momento só uma coisa lhe ocorria, tinha de estar com o inspector responsável pela investigação..."

"O encontro perturbador, aliado ao adiantado da hora, tinha um efeito nefasto sobre a sua lucidez. Conduzia como um autómato, a cabeça longe, muito longe da estrada por onde os olhos passavam. Era de noite, ainda. Para não enlouquecer durante as longas horas que antecediam a manhã e a sua oportunidade de falar com o inspector, foi para casa, tomou um banho tão quente quanto conseguiu tolerar e, ainda com o cabelo a pingar água e a pele a fumegar vapor, sentou-se a escrever a sua versão dos factos, a sua memória dos acontecimentos, caso algo lhe acontecesse... Escreveu tudo, longamente, e concluiu com a revelação do facto mais bem guardado:"

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Certo!

:)

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Se o ridículo pagasse imposto...


... desconfio que Margarida Rebelo Pinto andava por aí de mão estendida à caridade! A crónica pode ter quase dois anos, mas recentemente entrou no circuito do facebook. Aliás, nem sei se teria sido o Relvas a lançar a crónica para lá, no intuito de ser "destronado"... Com esta gente, nunca se sabe! E deu azo a esta resposta:

"As escritorazinhas e as outras..

Serve esta crónica para retratar e comentar um certo elemento que existe frequentemente em órgãos de comunicação social e que responde pelo nome genérico de "Escritorazinha"

A Escritorazinha é aquela in

telectual companheirona que desde o liceu cultivava o estilo "eu é que sou boa", tinha graves défices de atenção por parte das outras raparigas, era usada e abusada pelos rapazes e os professores teimavam em dizer-lhe que tinha um belo futuro como escritora, só porque era boa de pernas. Ora acontece que a Escritorazinha é geralmente burra e sem ideias, sempre pronta para escrever asneiras e alinhar com a malta em jornais mais sensacionalistas que a revista Mariana, para além de escrever livros onde nem sequer sabe descrever propriamente uma personagem, e raramente os seus escritos se tornam apetecíveis a alguém com meio palmo de testa, a não ser em noites longas regadas a mais de sete vodkas, nas quais o desespero comanda o sistema intelectual, transformando qualquer Pipoca Mais Doce numa Bessa Luís, mesmo que seja uma peixeira com bigode do Mercado da Ribeira.

A Escritorazinha é porreira, é fixe, é divertida, quer sempre ir a todo o lado e está sempre bem-disposta, portanto a Escritorazinha torna-se numa espécie de mascote do jornal que todos protegem, porque, no fundo, todos sabem que ela já foi comida por muito barão dos média, e no fundo, alguns até têm um bocado de pena dela, e uma grande dose de remorsos por já se terem metido com a mesma nas supracitadas funestas circunstâncias. E é assim que a Escritorazinha acaba por se tornar muito popular, até porque, como quase nunca escreve nada de jeito, está sempre disponível para os mais variados Órgãos de Com. Social, nem que seja o jornal Sol.

À partida, não tenho nada contra as Escritorazinhas, mas irrita-me que gozem de um estatuto especial entre os média. Às Escritorazinhas tudo é permitido: podem insultar os outros nas crónicas, processar em tribunal quem vai contra as suas ideias, consumir cocaína, podem inclusive ir a programas dizer que só têm 3 ou 4 dias para preparar a sua crónica, por isso não lhes podem pedir mais do que aquilo que escreve, porque como são do "grupo", toda a gente acha muita graça e ninguém condena.

Agora vamos lá ver o que acontece se uma escritora a sério faz alguma dessas coisas sem que surja logo um inquisidor de serviço a apontar o dedo para lhe chamar calaceira, irresponsável, pouco profissional e até mesmo burra. Uma escritora a sério não tem direito a esse tipo de comportamentos porque não foi levada ao colo pelas cunhas: é uma escritora e, consequentemente, se não consegue preparar uma crónica por semana, é imediatamente despedida. E o que mais me irrita é quando as Escritorazinhas apontam também elas o dedo às escritoras a sério, quando estas se comportam de forma semelhante a elas.

Ser escritora a sério dá trabalho e requer inteligência e sagacidade, para além de muita cultura. Que o digam as minhas amigas escritoras a sério, que foram vendo a sua reputação ser sistematicamente denegrida por dois tipos de pessoas: os tipos que nunca conseguiram que elas fossem trabalhar para os seus jornais e as Escritorazinhas que teriam gostado de ser convidadas para esses mesmos jornais, mas só conseguiram depois de se oferecerem. Uma escritora a sério não pode escrever sobre tudo, sob pena de censura. Já uma Escritorazinha pode dizer e fazer tudo o que lhe passar pela cabeça, porque conquistou um inexplicável estatuto de impunidade.

Porquê? Porque não é vista como uma escritora? Porque todo têm pena dela? E, já agora, porque é que quando uma Escritorazinha debita merda, as explicações bacocas para o sucedido são aceites sem despedimento, mas quando é uma escritora a sério a escrever sobre algo inoportuno, ninguém se coíbe de comentar:

Como dizia o François René: «O escritor original não é aquele que não imita ninguém ,
mas sim aquele que ninguém pode imitar.»

E quanto às Escritorazinhas, o melhor é arranjarem outro trabalho. Ou um frasco de cianeto. Ou as duas coisas."

Escrito por Fernando André Silva




Haja quem tenha paciência para tanto, que esta escritorazinha... nem merece!

sexta-feira, 29 de junho de 2012


"A Puta
Vou dizer-vos uma coisa. É preciso ter muita paciência para ter um blogue. Porque se há gente muito boa e querida e simpática como vocês, que são a maioria, depois há os outros. E se é verdade que são mesmo a minoria, esses outros cansam. Moem. Molestam. Porque são repetitivos. E têm tantos problemas na mona e na vida que fazem dó. Para esses, eu sou sempre e serei sempre... uma puta. Se sou feliz sou uma puta. Se sou infeliz, mais puta sou. Então é assim:
Se eu escrevo que vou de fim-de-semana, sou uma puta porque com esta crise há imensa gente que nem sabe como comer, quanto mais pensar em passar fins-de-semana fora. Se mostro fotos do sítio onde estou sou uma puta, a fazer pirraça a quem tem de ficar enfiado em 20 metros quadrados e cheio de fome. Mas se não mostro, sou uma puta ainda maior, que deve estar num palacete banhado a ouro e que nem tem coragem de mostrar, tal é o luxo nojento. Mas se, pelo contrário, não vou de fim-de-semana e me queixo de ter o dinheiro contado, sou uma puta porque moro no Parque das Nações, tenho os filhos no colégio, e devia ter vergonha por me queixar da falta de cheta quando há gente que, essa sim, não tem um cêntimo na carteira.
Se digo que estou gorda, sou uma puta porque há pessoas que pesam tanto que chegam aos 3 dígitos e estou a humilhá-las ao falar do meu suposto peso a mais. Mas se fico feliz porque emagreci, sou uma puta porque tenho dinheiro para fazer dietas que os outros não têm, e tenho tempo para fazer caminhadas, coisa que os outros, coitados, nunca têm.
Se me queixo dos meus filhos, porque fizeram uma tropelia qualquer e se estou cansada deles e deixo um desabafo, sou uma puta porque há tanta gente a querer engravidar sem conseguir, e eu que tenho filhos nunca por nunca devia queixar-me deles, é uma vergonha. Se os enalteço, vaidosa, sou uma puta que não pára de se gabar, e devia ter vergonha porque há pessoas que têm filhos deficientes que não conseguem sequer sorrir quanto mais fazer as habilidades que os meus fazem.
Se ponho vestidos da Madalena, sou uma puta exibicionista que devia era dar tudo a instituições de solidariedade. Se falo de solidariedade, sou uma puta porque na verdade o que eu quero é mostrar-me boazinha mas não passo de uma megera nojenta, que tem dinheiro para ser solidária, porque o resto das pessoas, coitadas, não têm dinheiro para si, quanto mais para os outros.
Se digo mal de um funcionário, que me atendeu mal, e calha a chamar-lhe burro, sou uma puta que não sabe o que passam os funcionários, uma puta que está a dizer que todos os funcionários desse ramo são burros, uma puta que acha que só porque tem um curso superior é melhor que os outros, devia era virar uma dessas funcionárias para ver o que era bom.
Se me queixo de ter muito trabalho, sou uma puta porque há muita gente no desemprego e eu devia era virar as mãos para o céu e agradecer ao Senhor a oportunidade que me deu. Se digo que houve um mês pior, com menos trabalho, vão dizer que eu sou uma puta, que em vez de estar em casa armada em freelancer devia era estar sentadinha a uma secretária, que assim não me faltava o trabalho, essa é que é essa.
Se digo que baptizei os meus filhos por respeito e amizade à minha sogra, sou uma puta porque com Deus não se brinca. Se decidisse não os baptizar, apesar dos pedidos da sogra, era uma puta das piores, ingrata do caraças, coração de pedra, incapaz de descer do seu pedestal arrogante para fazer alguém feliz.
Se estou doente, e descrevo o mal-estar, sou uma puta que não sabe o que é estar realmente doente, doente à séria, em perigo de vida, com um padre ao lado pronto para a extrema unção. Se me regojizo com a minha saúde, sou uma puta que merece é ficar doente, por estar a vangloriar-se de algo que há tanta gente a não ter.
Eu podia continuar por aí fora. Mas não posso. Tenho de ir trabalhar (ai, que puta, trabalhar? E tanta gente no desemprego...). E daqui a bocado também tenho de ir fazer o almoço para os meus 3 filhos que estão em casa porque têm tosse (tosse? oh, minha puta, tosse não é doença, sabes lá tu o que é estar doente?). Ainda bem que esta gente é a minoria. São vocês, a maioria saudável, que me faz continuar a ter vontade de vir aqui contar algumas aventuras e desventuras da minha vidinha normal (normal? tu és é uma anormal de primeira! E, claro, uma puta!)
* salvo seja!"
(Por Sónia Morais Santos)

domingo, 17 de junho de 2012

A festa... é no Quiproquó!



Escrevi um texto muito longo, mas para poupar fretes e lamechices, vou resumir: a culpa foi da Isa! Ela tinha um cantinho sossegado na blogosfera, onde todas as noites postava um poema de um poeta mais ou menos famoso, que me sabia muito bem ler antes de encerrar o PC. Através dela conheci o blogue da Su e depois o do Vício (na altura, tinha outro nickname!), do Nelson e mais um ou outro, onde ia lendo outros tópicos e comentando – quando conseguia.

Daí até desejar ter um blogue meu... passaram alguns largos meses! Porque sempre adorei ler e escrever, fazia todo o sentido. Experimentei todas as dicas que a Isa me deu (via mail) e, em novembro de 2006, abri este casinhoto, para decidir por outro diferente do blogger. Cantinho ainda mais sossegadinho, onde raramente obtinha comentários. Mas escrevia, que era o que me apetecia... Até que um dia, “apagou”!

Na época, calhou estar com obras em casa – que são sempre um pandemónio – com a livralhada toda espalhada pelo chão, num total de 1128 títulos, já devidamente contabilizados e organizados num ficheiro do computador. Chateada que nem um peru (no Natal), restava o último recurso: mudar de endereço blogosférico, onde, por acaso ou sorte de principiante, encontrei a inicial inscrição no blogger. O que também facilitava comentar nos poucos blogues que conhecia ou fui conhecendo...

O resultado está à vista: no final de junho, já decidira que não existiriam mais mudanças, apesar do anterior ter reaberto, para novamente ficar mudo e quedo durante cerca de um mês, e reabrir sabe-se-lá-quando-e-como! Essa decisão nem foi longamente ponderada, a interatividade que aqui encontrei estava muito, mas muito longe, do capítulo do blogue antecedente. E isso devo à Vani, ao Vício, à Pascoalita, ao Rafeiro Perfumado, à Su, ao Capitão Merda, à Diabba e a todos os outros comentadores que se seguiram (e que já não consigo nomear individualmente, por serem muitos - cerca de 13 mil comentários depois, uma vez que quase metade são respostas minhas), que me incentivaram a continuar a escrever e a aprender com outras vivências e formas de estar. 

Hoje, com a noção de que a blogosfera também reflete o mundo real, com o prazer de ter conhecido pessoalmente alguns outros bloguistas, julgo entender o virtual e o que tem de melhor e pior. E o melhor compensa! Venham mais cinco:
 

Como para “resumo” o texto já vai mais que longo, quero simplesmente agradecer a TODOS a atenção e até o carinho demonstrados nestes 5 anos...

OBRIGADA E BEM HAJAM, AMIGOS!

Imagem da net.