quinta-feira, 31 de março de 2011

Experiência cor-de-rosa

"Há uns segundos breves, na vida de todos os dias que não padeçam de nevoeiro ou chuva, em que o Sol, no seu poente, como que acenando um derradeiro adeus em beleza, matiza céu e terra de cor-de-rosa.
É um instante fugaz, indeterminado, alheio ao mecanismo monótono dos ponteiros do relógio; mas, para aquele homem, que talvez fosse poeta, conquanto não soubesse fazer versos, esse momento cor-de-rosa na vida do mundo ocupava todas as horas do dia, antes na expectativa, depois na recordação."
António Victorino d'Almeida,  no conto "Um Caso de Bibliofagia", in "Os Devoradores de Livros"
Andava triste. Desalentada, sem saber porquê. Ou melhor, até sabia. Era aquela rotina, aqueles gestos diários e repetitivos, aquela mecanização do quotidiano em que se movia como um autómato. Um dia, outro e outro, todos em fila indiana, já eram tantos que lhes perdera a conta. Cumpria as suas tarefas sem ímpeto e sem garra, no final chegava à janela, indiferente, apenas para constatar que lá fora também  as tonalidades  pardacentas tomavam conta da rua, de quando em vez caía uma morrinha acinzentada. Sentava-se no sofá e abria um livro, para desistir da leitura poucas páginas volvidas. Ligava a televisão, mas no ecrã só desfilavam desgraças alheias até à exaustão, tanto reais como ficcionais. Fechava o aparelho e os olhos, apetecia-lhe dormir e só acordar noutra era planetária. Não adormecia.
Naquele fim de tarde folheava um álbum de fotografias à toa, quase sem reparar nas imagens. E foi nesse exacto instante que decidiu sair do remanso do sofá e agir. Dirigiu-se ao armário e tirou de lá a caixa escondida no fundo da prateleira. Hesitou ainda uma fracção de segundo, antes de levar o primeiro aos lábios. Voltou para o sofá, onde se estendeu, indolente, cerrando novamente os olhos. E, com a embalagem ainda firme na mão, foi colocando um a um na boca, como se fosse um ritual...
Adormeceu, finalmente! Pairava-lhe um leve sorriso nos lábios entreabertos, de onde pendia um fio de baba castanha que pingava no tapete, exactamente em cima dos bombons "mon chérie" que tinham sobrado...

sexta-feira, 18 de março de 2011

Chegada da Primavera!

Lisboa, 18 de Março de 2011
Caros amigos:
Hoje resolvi escrever-vos uma carta, em vez do habitual post. Quem não tem saudades de receber uma carta ou um simples postal de um@ amig@ na sua caixa de correio, em vez das múltiplas contas para pagar (e isto se algumas não vierem já via correio electrónico) e publicidades de todo o género e feitio?
Bem sei que quando olharem a foto, tão banal, vão pensar se não arranjava melhor. Mas para mim encontrar estes pequeninos malmequeres, a despontar timidamente num relvado de uma rua movimentada de Lisboa, foi uma alegria: é o primeiro sinal da Primavera! E aqui e ali outros floresciam  em tufos esparsos, tremelicando ligeiramente ao sabor do vento, que ainda espairecia o odor da terra molhada. Apesar do trânsito e dos tubos de escape. E das pessoas apressadas que passavam sem reparar. Terei sido a única? Nesse aspecto as crianças são fantásticas, deslumbram-se sempre, como eu, com cada novidade que a natureza nos traz. Mas não andava por ali nenhuma...
A verdade é que ela está a chegar mesmo, já no próximo Domingo pelas 23h21m, assim asseguram os meteorologistas cada vez mais meticulosos. Coitada da dona L., que deve estar a dar voltas na tumba com estas modernices, ai da aluna que lhe respondesse que a Primavera começava a 20 de Março - certamente ferveria reguada! 
Portanto, há que preparar um novo ciclo de vida, aproveitar os dias mais longos (a hora também muda a 27 de Março) e a sua chegada, sair à rua para fotografar o que nos rodeia, passear à beira-mar, por jardins ou por onde nos aprouver, sentar nas esplanadas a ler aquele livrinho que há tanto tempo está esquecido na prateleira,  e, claro, proporcionar encontros com @s amig@s  para pôr a conversa em dia. Sim, porque não é só com um mail esporádico ou um telefonema rápido que a amizade se mantém e floresce. Mas também não é necessário andar sempre em cima, evidentemente, que todos gostamos de ter o nosso espaço. Bom, e por enquanto será só isso, que os mergulhos ficarão lá mais para o Verão, pois a água ainda deve estar gelada (brrrr!!!). Sem esquecer, obviamente, que entre estas tardes e noites cálidas ainda surgirão aguaceiros, que convidarão ao aconchego do sofá ou a uma ida ao cinema. Faz parte! Não se esqueçam é que este é o primeiro fim de semana do resto da vossa Primavera, há que saboreá-lo... Divirtam-se!
Beijocas da 
Teté