quarta-feira, 17 de agosto de 2011
sábado, 2 de julho de 2011
ANEDOTA DOS REMADORES
Numa competição entre Portugal e o Japão, Portugal chegou em último. Quando se analisou a constituição dos barcos, verificou-se que a equipa japonesa tinha 1 chefe de equipa com megafone, e 10 remadores, e a portuguesa 10 chefes de equipa com megafone e um remador.
Fez-se rapidamente uma restruturação. Na corrida seguinte, tornámos a perder. A equipa japonesa continuava com um 1 chefe de equipa e 10 remadores. A equipa portuguesa tinha 1 chefe de equipa, 2 planeadores de estratégia, 3 chefes de departamento, 1 director de recursos humanos, 2 assessores, e 1 remador.
Analisaram-se os maus resultados e concluiu-se que o remador era incompetente, e que era preciso implementar as mais modernas estratégias de produção.
No ano seguinte, a equipa japonesa mantinha o gajo do megafone e os 10 remadores. A portuguesa era agora constituída por 1 chefe de equipa, 2 auditores de qualidade, 1 assessor de empowerment, 1 supervisor de downsizing, 1 director de tecnologia, 1 analista de informática, 1 controler, 1 chefe de departamento, 1 controlador de tempo, e 1 remador.
Perdemos catastroficamente. Conclusão: depois de tantos esforços na sua formação e acompanhamento, o remador continua incompetente. Foram abolidos todos os seus benefícios e incentivos, e decidiu-se contratar um novo remador, mas desta vez com contrato de prestação de serviços a terceiros e sem vínculos laborais para não se ter de lidar com os sindicatos que degradam a produtividade.
Fez-se rapidamente uma restruturação. Na corrida seguinte, tornámos a perder. A equipa japonesa continuava com um 1 chefe de equipa e 10 remadores. A equipa portuguesa tinha 1 chefe de equipa, 2 planeadores de estratégia, 3 chefes de departamento, 1 director de recursos humanos, 2 assessores, e 1 remador.
Analisaram-se os maus resultados e concluiu-se que o remador era incompetente, e que era preciso implementar as mais modernas estratégias de produção.
No ano seguinte, a equipa japonesa mantinha o gajo do megafone e os 10 remadores. A portuguesa era agora constituída por 1 chefe de equipa, 2 auditores de qualidade, 1 assessor de empowerment, 1 supervisor de downsizing, 1 director de tecnologia, 1 analista de informática, 1 controler, 1 chefe de departamento, 1 controlador de tempo, e 1 remador.
Perdemos catastroficamente. Conclusão: depois de tantos esforços na sua formação e acompanhamento, o remador continua incompetente. Foram abolidos todos os seus benefícios e incentivos, e decidiu-se contratar um novo remador, mas desta vez com contrato de prestação de serviços a terceiros e sem vínculos laborais para não se ter de lidar com os sindicatos que degradam a produtividade.
quinta-feira, 23 de junho de 2011
Como é que se esquece...?
Como é que se Esquece Alguém que se Ama?
Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está?
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar.
É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução.
Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha.
Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado.
O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.
Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'
quinta-feira, 16 de junho de 2011
sexta-feira, 10 de junho de 2011
quarta-feira, 13 de abril de 2011
Despedida
Estou indo embora. Não há mais lugar para mim Eu sou o trema.Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüiféros, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos. Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!... O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disse que sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto ele fica em pé. Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C cagão que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K, o W "Kkk" pra cá, "www" pra lá. Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências! Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!... Nos vemos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história. Adeus, Trema. |
quinta-feira, 31 de março de 2011
Experiência cor-de-rosa
"Há uns segundos breves, na vida de todos os dias que não padeçam de nevoeiro ou chuva, em que o Sol, no seu poente, como que acenando um derradeiro adeus em beleza, matiza céu e terra de cor-de-rosa.
É um instante fugaz, indeterminado, alheio ao mecanismo monótono dos ponteiros do relógio; mas, para aquele homem, que talvez fosse poeta, conquanto não soubesse fazer versos, esse momento cor-de-rosa na vida do mundo ocupava todas as horas do dia, antes na expectativa, depois na recordação."
António Victorino d'Almeida, no conto "Um Caso de Bibliofagia", in "Os Devoradores de Livros"
Andava triste. Desalentada, sem saber porquê. Ou melhor, até sabia. Era aquela rotina, aqueles gestos diários e repetitivos, aquela mecanização do quotidiano em que se movia como um autómato. Um dia, outro e outro, todos em fila indiana, já eram tantos que lhes perdera a conta. Cumpria as suas tarefas sem ímpeto e sem garra, no final chegava à janela, indiferente, apenas para constatar que lá fora também as tonalidades pardacentas tomavam conta da rua, de quando em vez caía uma morrinha acinzentada. Sentava-se no sofá e abria um livro, para desistir da leitura poucas páginas volvidas. Ligava a televisão, mas no ecrã só desfilavam desgraças alheias até à exaustão, tanto reais como ficcionais. Fechava o aparelho e os olhos, apetecia-lhe dormir e só acordar noutra era planetária. Não adormecia.
Naquele fim de tarde folheava um álbum de fotografias à toa, quase sem reparar nas imagens. E foi nesse exacto instante que decidiu sair do remanso do sofá e agir. Dirigiu-se ao armário e tirou de lá a caixa escondida no fundo da prateleira. Hesitou ainda uma fracção de segundo, antes de levar o primeiro aos lábios. Voltou para o sofá, onde se estendeu, indolente, cerrando novamente os olhos. E, com a embalagem ainda firme na mão, foi colocando um a um na boca, como se fosse um ritual...
Adormeceu, finalmente! Pairava-lhe um leve sorriso nos lábios entreabertos, de onde pendia um fio de baba castanha que pingava no tapete, exactamente em cima dos bombons "mon chérie" que tinham sobrado...
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